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Quando a paixão vira legado

Pais e filhos unidos pelo automobilismo


A velocidade sempre foi um elo entre eles. Antes mesmo de dividirem os autódromos, já compartilhavam o mais importante, o amor entre pai e filho. Talvez seja por isso, que o destino tenha traçado o caminho para que vivessem juntos algumas das maiores emoções, enfrentando os autódromos mais desafiadores do país. Lado a lado, dentro e fora das pistas, colecionando histórias e momentos que vão muito além da bandeirada final e que ficarão marcadas para sempre em suas vidas.


Para Gustavo Filgueiras, o automobilismo nasceu justamente assim, pelas mãos do pai, que não apenas apresentou a ele o mundo das corridas, mas também se tornou seu companheiro de pista, de desafios e de grandes conquistas. “A paixão pelo automobilismo veio desde o berço. Meu pai quem me apresentou”, lembra.


Ao longo da trajetória no esporte à motor, Gustavo teve a oportunidade de dividir o carro de corrida com o pai na Turismo 1.4 Brasil. Mais do que compartilhar o volante, os dois passaram a dividir uma paixão capaz de aproximá-los ainda mais e transformar cada disputa em uma experiência única. “Para mim poder compartilhar a mesma paixão e viver isso com meu pai é uma conexão de pai para filho surreal, os dois se ajudando e buscando um resultado final, além da diversão do automobilismo”, conta.


Entre tantas lembranças construídas dentro das pistas, uma delas ocupa um lugar especial na memória de Gustavo. “O momento mais especial dentro do automobilismo junto com meu pai foi uma vitória na geral do campeonato mineiro de Turismo 1.4 andando em dupla com ele”, recorda.

Para eles, o automobilismo nunca foi apenas sobre velocidade. Dentro do carro, entre curvas, ultrapassagens e disputas acirradas, existe algo ainda maior, a troca de experiências, a confiança e a parceria entre pai e filho, que fazem da pista um lugar onde gerações se encontram e a mesma paixão é compartilhada. “Um ensinamento que o automobilismo gera é a resiliência, além disso, o respeito entre gerações”, diz.


É nesse encontro entre diferentes gerações que a relação dos dois tem ganhado ainda mais significado. A pista se transformou em um lugar onde o conhecimento é compartilhado e os desafios são enfrentados juntos. “É um sentimento de parceria e continuidade de uma paixão”, afirma.


E talvez seja justamente essa continuidade que torne essa jornada tão especial. Porque, para Gustavo, estar ao lado do pai em um carro de corrida representa muito mais do que competir. “Significa ter a pessoa que mais admiro dividindo uma das maiores paixões que tenho”, conta.


Recentemente, essa relação ganhou mais um capítulo. Na etapa de Cuiabá da Turismo 1.4 Brasil, Gustavo voltou ao campeonato para substituir o pai durante a competição. Depois de uma temporada afastado da categoria, ele reencontrou não apenas a pista, mas também um ambiente que carrega uma parte importante de sua história. “Para mim, substituir meu pai na etapa de Cuiabá foi especial, um reencontro com a turismo 1.4 após uma temporada fora do campeonato e uma oportunidade de estar junto dele em um dos ambientes que mais amamos”, diz.


A experiência de ocupar o lugar do pai carrega um significado importante. É como se, por algumas voltas, Gustavo também pudesse carregar consigo tudo aquilo que aprendeu e tem aprendido desde a infância,  os ensinamentos, sonhos e a paixão que recebeu e recebe daquele que o colocou pela primeira vez em contato com o esporte.


Pedro Scistowicz, assim como Gustavo, tem a alegria de dividir o carro de corrida com o pai e de transformar o automobilismo em algo muito maior do que uma competição. Para ele, cada etapa tem representado a continuidade de uma história que começou ainda na geração anterior e que hoje tem ganhado novos capítulos dentro da Turismo 1.4.


A paixão pelos carros nasceu através do avô de Pedro, que iniciou sua trajetória no automobilismo ainda na década de 1960, como preparador e chefe de equipe. O que começou com ele, acabou se tornando parte da identidade de toda a família. “A paixão do meu avô ficou no sangue para a família inteira”, recorda. 


E se o amor pelo automobilismo foi herdado, correr ao lado do pai transformou essa herança em uma experiência ainda mais significativa. Para Pedro, poucas coisas se comparam à sensação de viver uma semana de corrida ao lado de quem compartilha não apenas o mesmo carro, mas também o mesmo entusiasmo. “Não tem sensação melhor do que estarmos em semana de corrida. Estamos juntos durante toda semana, vivendo o que mais gostamos, com boas companhias e a família em algumas etapas”, diz.


No automobilismo, existem momentos que ficam marcados pelo resultado, pela ultrapassagem ou pela comemoração no pódio. Mas, para Pedro, escolher apenas uma lembrança especial ao lado do pai seria praticamente impossível. Afinal, são tantas histórias acumuladas que cada uma delas ganhou um lugar especial em sua memória. “ É difícil citar um só. Acho que todos os momentos são bastante especiais. Tenho certeza que todos vão ficar gravados de uma forma muito especial para o resto de nossas vidas”, afirma.


E talvez seja justamente essa a maior vitória dessa parceria entre eles, aquilo que acontece fora da pista também importa tanto quanto o que acontece dentro dela. O automobilismo ensinou aos dois que, antes de serem companheiros de corrida, eles sempre foram e serão parceiros de vida. “A nossa relação se baseia desde sempre em parceria”, afirma.


Dividir o carro tem trazido um novo significado para essa parceria. Pedro conta que, apesar de os dois sempre terem compartilhado a mesma paixão, existe algo diferente quando o pai está ao volante. E, curiosamente, quem fica mais nervoso não é necessariamente quem está acelerando. “Sempre tivemos a mesma paixão, mas dividir o carro é uma sensação diferente, eu fico mais nervoso quando assisto ele correndo do que quando eu corro”, recorda.


Fora das pistas, a parceria já existia, dentro delas, a Turismo 1.4 apenas encontrou uma nova maneira de fortalecê-la. “Sempre fomos parceiros para tudo fora das pistas. Agora nas pistas da turismo 1.4 foi só mais um elo da parceria de sempre”, afirma. Se pudesse voltar no tempo, para os primeiros dias em que ainda era um menino descobrindo o universo do automobilismo, Pedro não faria grandes previsões sobre o futuro, diria apenas aquilo que traduz, até hoje, a cumplicidade entre pai e filho. “Treina bastante porque vou te dar um coro! Feliz Dia dos Pais, pai! Te amo!”, encerra Pedro, sorrindo.


Assim como a história de Pedro, Tiago Takagi também conheceu o automobilismo através do avô e do pai. O amor pela velocidade nasceu ainda nas arquibancadas, nos boxes e nas conversas de família, quando o avô, Urbano Silva, deu as primeiras voltas e abriu um caminho que, décadas depois, continua sendo percorrido por ele e pelo pai. “Começou com meu avô no ano de 1988, quando ele iniciou nas corridas na época da Speed 1600, os fuscas. Desde então, a família está ligada ao automobilismo até os dias de hoje, onde o carro 54 esteve presente em todos os anos em diversas categorias sendo pilotado pelo meu avô, pelo meu pai e agora por mim”, conta. 


O número 54, carrega muito mais do que uma identificação na pista. Ele traduz uma história,  é a marca de uma família que encontrou no automobilismo uma paixão capaz de atravessar gerações e transformar domingos de corrida em momentos compartilhados. Primeiro, foi o avô, depois, o pai, e agora é o Tiago quem assume o volante e dá continuidade a uma trajetória que começou ainda na década de 80.


E talvez seja justamente por isso que dividir o autódromo com o pai tenha um significado tão difícil de explicar. Para Tiago, não se trata apenas de acelerar, disputar posições ou cruzar a linha de chegada vitorioso, é sobre viver uma paixão que foi ensinada dentro de casa e que, com o passar dos anos, ganhou novos significados e ainda mais força. “Para mim é algo inexplicável, só quem vive isso sabe a paixão que temos por esse esporte. Com meu pai e meu avô aprendi a amar o automobilismo e a absorver tudo o que esse esporte proporciona em aprendizados e superação, vai muito além do que apenas acelerar um carro de corrida, mas é sobre viver cada momento com muita dedicação e amor ao esporte”, afirma.


Entre tantas memórias construídas ao longo dessa trajetória, uma delas ocupa um lugar especial no coração de Tiago. Uma corrida onde as três gerações da família estiveram juntas dentro do mesmo carro durante as 12 Horas de Tarumã. “Com certeza foi dividir o mesmo carro com meu pai e meu avô em uma 12 horas de Tarumã. Acho que foi o momento mais marcante para mim, onde fizemos uma corrida em que o mais importante era nos divertirmos e ainda assim tivemos um grande resultado na corrida. Foi especial”, recorda.


Mais do que o resultado positivo, aquela prova representou o que talvez seja a essência da história da família de Takagi, estar juntos. Porque, em uma família que encontrou no automobilismo uma paixão em comum, cada corrida também se tornou uma oportunidade de fortalecer laços, superar dificuldades e celebrar conquistas. “Acho que a corrida foi um meio que uniu mais a nossa família. A corrida tem nos ensinado muito a ser paciente em decisões e principalmente uma coisa que o pai e o vô me ensinam muito é ser o mais correto possível, dentro e fora da pistas, procurar fazer as coisas certas e ser uma boa pessoa com adversários e amigos de pista”, afirma.


São ensinamentos que não terminam ao final da corrida, muito pelo contrário. Talvez seja justamente esse aprendizado que permanece quando os motores desligam. A paciência para tomar decisões, o respeito pelos adversários, a importância de fazer o que é certo e, principalmente, a compreensão de que vencer não significa apenas chegar em primeiro, mas compartilhar cada momento com quem sempre esteve ao seu lado.


Hoje, Tiago não tem apenas o pai e o avô junto com ele pelos autódromos mais desafiadores do país, tem também dois parceiros de trabalho, pessoas que participam diretamente da construção de cada corrida e de cada conquista. O pai de Tiago deixou de ser apenas aquele que apresentou o automobilismo ao filho e passou a ser também parte fundamental daquilo que acontece dentro da pista, é ele quem cuida do carro para que Tiago possa viver a emoção da velocidade. “Meu pai hoje é um grande preparador e que faz meu carro comigo, então sempre um final de semana de corrida é especial, a gente sofre junto quando não está bom e vibra mais ainda quando vencemos. Sou muito grato pelos momentos que vivemos juntos em corridas”, diz.


A rotina dos autódromos pode ser intensa. São dias de preparação, ajustes, expectativas, tensão e adrenalina. Mas, para Tiago, ter o pai ao lado transforma cada etapa em algo maior do que uma competição. “Para mim é muito especial, compartilhamos a mesma paixão pelo esporte e ainda somos uma equipe unida. A gente se entende bem na preparação do carro e aproveitamos muito os momentos que temos nas corridas”, lembra.


No fim, talvez seja essa a maior vitória dessa história. Ter encontrado no automobilismo não apenas uma paixão, mas um ponto de encontro entre gerações. Um espaço onde avô, pai e filho puderam compartilhar sonhos, aprendizados, desafios e, principalmente, o precioso tempo juntos.


E quando Tiago olha para trás e pensa naquele primeiro momento em que esteve ao lado do pai em um autódromo, não fala sobre velocidade, troféus ou resultados, ele fala sobre gratidão. “Agradeço por ter me apresentado o automobilismo. Com certeza foi um dos momentos mais importantes e marcantes para mim e também para ele, hoje vendo o que o automobilismo nos proporciona, foi um grande acerto ter me apresentado o automobilismo e hoje fazer parte das nossas vidas”, afirma.


Algumas paixões são escolhidas, outras são apresentadas a nós por quem amamos e, com o tempo, tornam-se parte de quem somos. Para Tiago, o automobilismo começou com o avô, ganhou força ao lado do pai e hoje segue pelas suas próprias mãos, no comando do carro 54. Uma história que começou há quase quatro décadas, mas que continua sendo escrita a cada nova largada pelos circuitos mais emocionantes e desafiadores do país.


Se, para Tiago Takagi, o automobilismo atravessou gerações, para Gabriel Sano essa paixão também começou dentro da família. Antes mesmo de imaginar que um dia estaria nas pistas, Gabriel cresceu cercado por carros, acompanhando de perto o interesse do pai e descobrindo, pouco a pouco, aquele universo que mais tarde se tornaria parte de sua própria história.


“Meu pai sempre gostou muito de carros, então eu cresci vendo ele mexer nos carros dele e acabei pegando esse gosto também. A gente assistia a algumas coisas na TV, principalmente corridas de arrancada, e ele também participava de alguns eventos. Então, de certa forma, ele me colocou um pouco nesse mundo. Mas quem realmente me trouxe para as corridas foi o meu avô. Um dia, ele me chamou para andar de kart e, desde então, eu não parei mais. Estou até hoje nesse mundo”, lembra.


O kart foi a porta de entrada para Gabriel, mas foi ao lado do pai que essa paixão ganhou novos capítulos. O que começou com o interesse pelos carros se transformou em uma história compartilhada, feita de viagens, corridas, conversas, desafios e, sobretudo, companheirismo. “Para mim significa muito. É muito bom ter ele sempre do meu lado, me apoiando, vibrando, torcendo e, quando precisa, me cobrando também. Enfim, sou muito feliz por poder compartilhar isso com ele e sou muito grato pelo pai que eu tenho”, afirma.


Ao longo dessa trajetória, algumas conquistas ganham um significado diferente. Não apenas pelo resultado alcançado, mas por quem estava ali para testemunhar cada segundo. Foi assim em 2021, quando Gabriel conquistou o Campeonato Brasileiro de Kart e encontrou, na comemoração, uma das imagens que guarda com mais carinho. “Acho que foi quando eu ganhei o Brasileiro de Kart em 2021. Foi incrível ver ele vibrando e torcendo por mim. Ver ele ali, vivendo aquele momento junto comigo, foi muito especial e é uma coisa que eu vou levar para sempre”, conta.

Algumas vitórias não cabem em um troféu, elas permanecem nas lembranças, nos abraços, nos olhares e naqueles segundos em que a felicidade de uma conquista é dividida com quem esteve presente durante todo o caminho.


E, para Gabriel, o automobilismo acabou fazendo algo ainda maior, aproximou ainda mais pai e filho. As corridas passaram a ser também momentos de convivência, de descobertas e de uma cumplicidade que se fortaleceu a cada etapa. “Acho que o automobilismo fez a gente ficar ainda mais próximo. Ele sempre vai comigo nas corridas, está sempre do meu lado e é uma das pessoas que mais entende os meus problemas e como funciona minha cabeça e eu conheci ele melhor por conta das corridas, desse tempo que passamos juntos”, explica.


Essa parceria aparece nos detalhes. Na preparação, nas viagens, nas conversas antes de uma prova e também nos momentos em que é preciso colocar a mão na massa e ajudar. O automobilismo criou entre os dois uma linguagem própria, feita de olhares, estratégias, expectativas e sonhos compartilhados.


“Eu acho muito legal. É muito gratificante ter ele como alguém que confia em mim e que está ali dentro desse mundo comigo. Se precisar, ele põe a mão na massa, vai lá, mexe no meu carro, ajuda no que for preciso. E também é muito legal ver que é uma paixão que a gente compartilha. Às vezes, até em viagens longas, a gente fica conversando sobre corrida, carro, tudo isso. Então é muito bom ter essa coisa em comum com ele”, diz.


Talvez seja justamente essa presença constante que torne a história dos dois tão especial. Porque estar ao lado de alguém durante uma trajetória não significa apenas comemorar quando tudo dá certo. Significa também permanecer quando surgem as dificuldades, ajudar a encontrar soluções e oferecer apoio quando a confiança precisa ser reconstruída.


“Para mim significa muito. É uma pessoa que eu amo ter do meu lado, tanto nas corridas quanto fora delas. É alguém com quem eu posso contar, que me ajuda a resolver as coisas, que está sempre ali quando eu preciso e que também entende muito do que eu vivo dentro do automobilismo. Então, além de ser meu pai, é meu companheiro, e eu sou muito grato por poder ter ele comigo em todos esses momentos”, afirma.


Convidado a voltar no tempo e imaginar o que diria àquele Gabriel do primeiro dia em que começou a descobrir o automobilismo, ele reconhece que, naquele momento, não poderia imaginar tudo o que ainda estava por vir. Havia apenas uma criança descobrindo a velocidade e, ao seu lado, um pai que começava a construir, sem saber, algumas das memórias que permaneceriam para sempre. Se pudesse reviver aquele instante, o conselho seria simples, aproveitar mais cada momento, porque aquela experiência seria apenas o começo de uma história muito maior.


“Acho que eu diria para aproveitar mais aquele momento, porque eu não imaginaria tudo o que a gente ainda ia viver juntos dentro do automobilismo. Naquele primeiro dia, talvez a gente nem imaginasse que aquilo ia virar uma parte tão importante da nossa vida e da nossa relação. Então eu acho que diria para aproveitar, porque ainda teriam muitos momentos, muitas corridas e muitas histórias para a gente viver juntos”, afirma.


O automobilismo pode começar com o sonho de acelerar, mas, para muitas famílias, ele se transforma em algo muito maior, uma forma de estar junto e de acompanhar o crescimento de ambos.  As histórias de Gustavo, Pedro, Tiago e Gabriel nos mostram que  o esporte à motor pode assumir diferentes formas dentro de uma família. Pode nascer de um sonho compartilhado, atravessar gerações ou simplesmente se transformar em um ponto de encontro entre pais e filhos. Mas, em todas elas, existe algo que vai muito além das pistas, a presença de um pai que incentiva, ensina, acompanha, torce e, muitas vezes, ajuda a transformar um sonho em realidade.


Neste dia dos Pais, celebramos aqueles que estão ao nosso lado em cada largada, vibram a cada conquista e permanecem firmes mesmo quando a corrida não termina como o planejado. Porque, na vida e no automobilismo, algumas das melhores lembranças não são feitas apenas das vitórias, mas de quem esteve conosco durante todo o caminho.



Fotos: Gustavo e Guilherme Filgueiras





Fotos: Pedro e Rafael Scistowicz





Fotos Tiago Takagi, Urbano Silva e Leandro



Fotos Gabriel Sano e Jorge Sano





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